quarta-feira, 2 de abril de 2008

Dispenso comentarios...

Amada poesia favorita, do amado genio Fernando Pessoa em meu amado heteronimo preferido: Alvaro de Campos.


Tabacaria

Nao sou nada.
Nunca serei nada.
Nao posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhoes do mundo que ninguem sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o misterio de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessivel a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o misterio das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lucido, como se estivesse pra morrer,
E nao tivesse mais irmandade com as coisas
Senao uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensaçao de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como nao fiz proposito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui ate ao campo com grandes propositos.
Mas la encontrei só ervas e arvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que nao sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E ha tantos que pensam ser a mesma coisa que nao pode haver tantos!

Genio? Neste momento
Cem mil cerebros se concebem em sonho genios como eu,
E a historia nao marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senao estrume de tantas conquistas futuras.
Nao, nao creio em mim.
Em todos os manicomios ha doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que nao tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Nao, nem em mim...
Em quantas mansardas e nao-mansardas do mundo
Nao estao nesta hora genios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspiraçoes altas e nobres e lucidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lucidas -,
E quem sabe se realizaveis,
Nunca verao a luz do sol real nem acharao ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E nao para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razao.
Tenho sonhado mais que o que Napoleao fez.
Tenho apertado ao peito hipotetico mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que nao more nela;
Serei sempre o que nao nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou o que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deuz num poço tapado.
Crer em mim? Nao, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a caeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou nao venha.
Escravos cardiacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saimos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Lactea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que nao ha mais metafisica no mundo senao chocolates.
Olha que as religioes todas nao ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata,que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chao, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rapida destes versos,
Portico partido para o Impossivel.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lagrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que nao existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estatua que fosse viva,
Ou patricia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilissima e colorida,
Ou marquesa do seculo dezoito, decotada e longinqua,
Ou cocote celebre do tempo dos nossos pais,
Ou nao sei quê moderno - nao concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar, que inspire!
Meu coraçao é um balde despejado.
Como os que invocam espiritos invocam espiritos invoco
A mim mesmo e nao encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os caes que tambem existem,
E tudo isto me pesa como uma condenaçao ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje nao ha mendigo que eu nao inveje só por nao ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possivel fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que nao soube,
E o que podia fazer de mim nao o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem nao era e nao desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a mascara,
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Ja tinha envelhecido.
Estava bebado, ja nao sabia vestir o o dominó que nao tinha tirado.

Deitei fora a mascara e dormi no vestiario
Como um cao tolerado pela gerencia
Por ser inofensivo
E vou escrever esta historia para provar que sou sublime.

Essencia musical dos meus versos inuteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E nao ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciencia de estar existindo,
Como um tapete em que um bebado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e nao valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta tambem, e os versos tambem.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a lingua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satelites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tao inutil como a outra,
Sempre o impossivel tao estupido como o real,
Sempre o misterio do fundo tao certo como o sono de misterio da superficie,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a reliadade plausivel cai de repente em cima de mim.
Semi-ergo-me energico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrario.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertaçao de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota propria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertaçao de todas as especulaçoes
E a consciencia de que a metafisica é uma consequencia de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo o troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafisica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

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