"E uma maneira de entender o sono hipnótico é pensando nele como uma transformação, uma evolução, uma metamorfose. Que me faz pensar num lagarto que se movimenta lenta e pesadamente sobre as plantas verdes, contorcendo e escorregando seu corpo volumoso e se alimentando continuamente de flores.
E eu fico imaginando se a lagarta lamenta as suas limitações ou se ela desconfia que coisas realmente especiais a esperam; se ela sabe que vai entrar num casulo; ou, ainda, como ela sabe que é o tempo certo.
E eu não sei se ela adormece ao entrar no casulo ou se já está adormecida quando começa a tecer um envoltório sobre seu corpo: a crisálida, que é como uma casca dura que a separa e protege do ambiente. Talvez a luz e os sons cheguem de longe abafadas lá dentro – se é que chegam. Talvez ela se sinta confortável, aquecida, protegida. E pode ser que seja como um mergulho na inconsciência e no esquecimento; ou talvez ela sonhe com o que foi no princípio e, então, no que está se tornando. E, se ela percebe a metamorfose enquanto ocorrem as mudanças profundas que vão acontecendo...
Pode ser parecido com derreter, com perder a forma ou com um encolher, ir diminuindo e ir ficando leve. Pois o corpo esguio da borboleta é menor e tem longas pernas, delicadas estruturas que estão brotando do dorso e se tornando asas. E eu me pergunto se ela sonha com essas cores das suas asas ou com os artísticos desenhos que as enfeitam ou ainda seu formato, tamanho...
E essas asas mais tarde vão sentir o vento e a borboleta vai experimentar a emoção de voar, de alçar-se a lugares antes impossíveis. Olhando de cima o mundo deve parecer diferente. Mais colorido. Mais vasto. Cheio de coisas completamente novas, de novas possibilidades.
Borboletas gostam de flores e se alimentam de néctar, pólen (o que parece suave, delicioso; ainda mais delicioso na sua flor de cor preferida) e pouco, visto que é precioso. Mas perfeito, visto que as borboletas tocam o mundo com refinamento e delicadeza. Na verdade elas são etéreas, diáfanas, quase imateriais. Como se não fossem deste mundo, o qual sempre tocam com delicadeza.
É como se elas estivessem a meio caminho entre este mundo e outro mundo; talvez o mundo das fadas, o qual elas percebem através de suas longas e sensíveis antenas. Percebem como vibrações, intuições ou como sintonizando musica das esferas elevadas. Etéreas, diáfanas, percepção expandida. Ainda dormindo, porém. Profundamente.
E logo vai chegar a época de acordar, de romper o casulo e despertar para esse mundo magnífico e cheio de possibilidades..."
(Tumulto Secreto é o nome de um livro de poesias de P. Fightner.)
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